Falou, Ozzy!
O adeus a um dos pais da matéria
Eu ia escrever sobre outro assunto na newsletter desta semana, mas a morte do Ozzy mudou meus planos. A notícia me pegou completamente de surpresa. Claro que o cara estava mal de saúde, mas há pouco mais de duas semanas ele se despediu dos palcos com um show histórico em Birmingham, cidade natal dele e de seus companheiros de Black Sabbath, com quem tocou pela última vez. Acompanhei tudo pelo streaming, emocionado. Achava que ele ia continuar por aqui mais um pouco, talvez ainda gravando alguma coisa, algo que ele disse que tinha intenção de fazer. Infelizmente, não rolou.
Sei da existência do Ozzy muito antes de começar a ouvir o som dele. Ali no começo de 85, a febre do Rock in Rio pegou o Brasil inteiro, inclusive a criançada. Eu tinha 7 anos e fui fantasiado de roqueiro genérico na matinê do baile de Carnaval daquele ano, com a cara pintada, gel New Wave™ no cabelo e uma guitarra de papelão feita pela minha irmã. Está aí a prova:
Até mesmo a Elma Chips entrou na onda: nos salgadinhos, vinham figurinhas de vários astros de rock. Lembro claramente de ter pelo menos duas, a do Ozzy e a do Santana, catadas entre um e outro Pingo D'Ouro na hora do recreio. Na do Ozzy, ele aparecia com alguma coisa nojenta dentro da boca aberta cheia de dentes de monstro. Parece alguma geleia, mas obviamente era uma alusão ao episódio mais infame da carreira dele. Não lembro de ter escutado uma música sequer do Ozzy na época, mas sabia que ele era o cara de nome esquisito que ~comia morcego~ (na real, ele mordeu o bicho porque alguém da plateia jogou no palco e ele deu uma dentada achando que era um brinquedo de borracha).
Já na adolescência, quando comecei a ir atrás de rock dos anos 60 e 70 após ter enjoado de Guns N'Roses, Red Hot Chili Peppers e Nirvana, inevitavelmente cheguei no Black Sabbath. Me surpreendi ao descobrir que aquele maluco da figurinha (de quem praticamente nunca mais tinha ouvido falar depois do Rock in Rio) tinha sido o vocalista original da banda. Naquela época, fiquei obcecado pelo Sabá, que estava passando por um período de reavaliação crítica depois de duas décadas de desprezo (fenômeno que aconteceu após eles terem sido apontados como influência por todas as bandas grunge). Parecia incrível que banda não fosse atual, eles soavam muito contemporâneos.
O Black Sabbath pegou o volume e o peso do Led Zeppelin, Jimi Hendrix Experience e Cream e transformou em algo mais agressivo e sinistro. Eles criaram a trilha sonora perfeita para a ressaca da geração Paz & Amor, que acordava do sonho hippie em uma realidade de guerras, repressão, bad trips, overdoses e paranoia. Escutar o que a banda fazia em 1970 é impressionante. A voz do Ozzy era um uivo nasalado que pairava em tom de desdém sobre a guitarra tonitruante do Tony Iommi, o baixo sinuoso do Geezer Butler e a bateria tribal do Bill Ward. Dá para ter uma ideia do estrago vendo os caras em ação no início da carreira (adorava quando esses clipes passavam no Clássicos MTV ou nas madrugadas da emissora):
No início dos anos 90, li tudo o que encontrava sobre os caras, comprei os discos, colei pôsteres nas paredes do quarto e usava uma camiseta horrível deles que basicamente virou meu uniforme. Isso foi bem quando o Dio tinha voltado para o Black Sabbath. Ele acabou saindo de novo logo depois porque se recusou a tocar na abertura do primeiro adeus do Ozzy aos palcos, no show derradeiro da turnê No More Tours, em 92 (três anos depois da decisão de largar a banda, o Dio estava tocando em Santo Amaro da Imperatriz para meia dúzia de gatos pingados, fui testemunha disso). Para substituir o vocalista demissionário na apresentação, o Sabá chamou o Rob Halford às pressas. No fim, Iommi, Butler e Ward se reuniram com o Ozzy para tocar quatro músicas. Basicamente comprei o CD ao vivo Live & Loud, que registrou essa turnê do Ozzy, por causa da versão arrepiante de "Black Sabbath", a canção, que eles tocaram. Também passei a alimentar a esperança de uma volta da formação original, o que estava sendo muito especulado na época.
O retorno do Ozzy acabou virando uma novela. De saco cheio de esperar, o Black Sabbath chamou de volta o fraco vocalista Tony Martin, gravando mais dois discos com o cara (Cross Purposes, em 94 e Forbidden em 95). A banda chegou a tocar no Brasil com três quartos da formação original e ele no vocal em 1994, no Monsters of Rock. Já o Ozzy gravou o meia-bomba Ozzmosis em 1995 (a carreira solo dele nunca me bateu tanto, mas gosto dos dois primeiros e do No More Tears). O Ozzy veio na edição brasileira daquele ano do Monsters of Rock (com o Geezer Butler no baixo), mas não consegui ir e fiquei assistindo pela TV, frustrado. A volta da formação original acabou acontecendo só em 1997: gravaram um disco ao vivo, Reunion, mas não tocaram por aqui. Nos anos seguintes, o Ozzy ficou se dividindo entre a carreira solo e turnês do Sabá.
Aí a história salta para 2011, quando anunciaram que o Black Sabbath ia gravar um disco novo de estúdio com a formação original, o primeiro desde Never Say Die (1978). Em 2013, saiu o bom álbum 13, produzido pelo Rick Rubin, mas sem o Bill Ward na bateria (que, por discordâncias contratuais, foi substituído pelo Brad Wilk, do Rage Against The Machine). Nessa turnê, eles vieram para o Brasil com o Ozzy pela primeira vez e eu finalmente consegui ver os caras, em Porto Alegre. Foi a realização de um sonho (a resenha que eu escrevi na época pode ser lida via Wayback Machine).
Em 2016, eles voltaram ao país com a turnê The End e eu acabei indo ver a banda de novo, em Curitiba, bem de perto dessa vez (na anterior eu me arrependi de ter comprado ingresso na pista comum). Inclusive, fui nesse último show vestido com aquela camiseta horrível que praticamente andava sozinha quando eu tinha 15 anos.
Fico impressionado como o Black Sabbath continua a atravessar gerações. Há uns dois meses, fui ao Mercado Público de Florianópolis e tinha uma banda de adolescentes tocando rock no vão central. Em meio a coisas mais recentes, mandaram "N.I.B." e "Iron Man". Quando eu tinha a idade deles, essas músicas já eram consideradas velhas.
O legado do Black Sabbath entre músicos consagrados também é imenso. Ontem, as homenagens ao Ozzy não vieram só do pessoal do metal. Artistas tão diferentes quanto Nancy Sinatra, Jello Biafra, Duran Duran, Ceelo Green, Blondie, Ice T, Pixies, Questlove, Elton John, Robert Plant, Jimmy Page, Jack White, Flavor Flav, Steve Jones (dos Sex Pistols), e muitos outros prestaram tributo ao cara.
Mesmo triste com a partida do Ozzy, fico feliz que o cara tenha conseguido se despedir de um jeito tão bonito, sendo louvado por um público amoroso e tocando com os outros três caras que começaram isso tudo com ele (e também com o Zakk Wylde, Mike Inez, Tommy Clufetos e Adam Wakeman, os fiéis escudeiros que o acompanharam por mais tempo na carreira solo).
Três covers legais de Black Sabbath
“Snowblind”, John Frusciante
O eterno guitarrista do Red Hot mandando uma inacreditável versão acústica do clássico do Vol. 4.
“Iron Man”, The Cardigans
Os suecos sempre foram fãs do Sabá e do Ozzy. Além dessa, gravaram “Sabbath, Bloody, Sabbath” e “Mr. Crowley” em arranjos easy listening. Ao vivo também tocavam “Changes.”
”Black Sabbeth”, Gonga & Beth Gibbons
A (ex?) vocalista do Portishead cantando Black Sabbath (com direito a trocadalho com o nome dela no título da música). Não tem como ficar melhor que isso.
Até a próxima, rapeize!





